Segunda, 21 de setembro de 2026
TECNOLOGIA

A tecnologia não elimina o futuro, transforma quem está preparado para vivê-lo

A história mostra que grandes avanços tecnológicos mudam profissões, criam novas oportunidades e valorizam quem aprende a usar a inovação como instrumento de crescimento profissional, intelectual e pessoal

Sempre que surge uma tecnologia capaz de alterar profundamente a sociedade, surge também uma previsão de que determinada profissão vai desaparecer, milhões de pessoas ficarão sem trabalho e o ser humano perderá espaço para as máquinas. Foi assim em diferentes momentos da história e está acontecendo novamente com a inteligência artificial. O problema não está em discutir os riscos da tecnologia, porque eles existem e precisam ser tratados com seriedade. O problema começa quando possibilidades são apresentadas como certezas e cenários especulativos são tratados como se o futuro já estivesse determinado.

Vale lembrar quantas previsões semelhantes já ouvimos. A popularização dos computadores levaria ao desaparecimento dos escritórios e de inúmeras funções administrativas. A internet acabaria com grande parte das profissões tradicionais. O comércio eletrônico decretaria o fim das lojas físicas. Os caixas eletrônicos eliminariam trabalhadores dos bancos. Os mecanismos de busca tornariam professores e especialistas desnecessários. A automação industrial produziria desemprego estrutural permanente. Depois vieram os smartphones, a computação em nuvem, os aplicativos, o trabalho remoto e tantas outras transformações acompanhadas do mesmo discurso. Algumas atividades efetivamente desapareceram ou diminuíram, outras foram profundamente modificadas, mas ao mesmo tempo surgiram profissões, mercados, especializações e oportunidades que sequer poderiam ser imaginadas anteriormente.

Com a inteligência artificial, a história parece seguir uma dinâmica semelhante. Não se trata de afirmar que nada mudará. Mudará muito. Algumas tarefas repetitivas serão automatizadas, determinados cargos poderão diminuir e profissionais que se recusarem a atualizar suas competências enfrentarão dificuldades. Mas isso é bastante diferente de afirmar que o trabalho humano está condenado. Em maio de 2025, a Organização Internacional do Trabalho analisou quase 30 mil tarefas profissionais e concluiu que aproximadamente um em cada quatro trabalhadores exerce alguma ocupação potencialmente exposta à inteligência artificial generativa. O ponto mais importante, porém, está justamente na conclusão do estudo: devido à necessidade contínua de participação humana, o resultado mais provável é a transformação das profissões, e não sua simples eliminação.

Uma revisão da própria OIT publicada em junho de 2026, já considerando evidências empíricas mais recentes de empresas, trabalhadores e experimentos em diversos países, reforça esse cuidado com previsões apocalípticas. O estudo reconhece ganhos reais de produtividade e mudanças na organização do trabalho, mas afirma que, até agora, o deslocamento de empregos em larga escala provocado pela inteligência artificial permanece limitado. Isso não significa ausência de risco. Existem preocupações legítimas sobre desigualdade, oportunidades para trabalhadores iniciantes, qualificação profissional e reorganização das empresas. Mas os dados existentes não sustentam, neste momento, a ideia simplista de um desaparecimento generalizado das profissões.

Outro dado importante vem do Future of Jobs Report 2025, elaborado a partir de informações fornecidas por mais de mil empresas. O levantamento projeta profundas mudanças no mercado mundial até 2030, incluindo o deslocamento de aproximadamente 92 milhões de postos de trabalho. Isoladamente, esse número pode parecer assustador e frequentemente é exatamente assim que estatísticas desse tipo são apresentadas. Entretanto, o mesmo estudo projeta a criação de cerca de 170 milhões de novos postos, resultando em um saldo líquido positivo estimado de aproximadamente 78 milhões de empregos. Entre as atividades de maior crescimento esperado encontram-se justamente especialistas em inteligência artificial, big data, desenvolvimento de software, armazenamento de dados, segurança e diversas outras áreas impulsionadas pela transformação tecnológica.

Também é significativo observar o que dizem aqueles que já trabalham diretamente com essas ferramentas. Em pesquisas da OCDE sobre inteligência artificial no ambiente profissional, aproximadamente quatro em cada cinco trabalhadores entrevistados afirmaram que a utilização de IA melhorou seu desempenho no trabalho, enquanto três em cada cinco disseram que ela tornou o trabalho mais agradável. Evidentemente existem riscos relacionados à intensificação do trabalho, privacidade, desigualdade e automação, mas esses números ajudam a desmontar a ideia de que a tecnologia deve ser analisada exclusivamente como adversária do trabalhador.

É justamente aí que considero estar o verdadeiro debate. A inteligência artificial não deve ser idolatrada, mas também não deve ser demonizada. Ela é uma ferramenta extremamente poderosa e, como praticamente toda grande tecnologia anterior, seu impacto dependerá de como indivíduos, empresas, governos e instituições educacionais aprenderão a utilizá-la. Uma pessoa que simplesmente entrega sua capacidade intelectual à tecnologia pode realmente se tornar dependente dela. Entretanto, alguém que domina sua profissão, mantém pensamento crítico e utiliza a inteligência artificial para pesquisar, comparar informações, automatizar tarefas repetitivas, testar hipóteses, desenvolver ideias e acelerar processos pode ampliar enormemente sua capacidade de trabalho.

A diferença está justamente no verbo utilizado. Existe uma distância enorme entre ser substituído pela tecnologia e ser potencializado pela tecnologia. Um jornalista pode utilizar inteligência artificial para organizar grandes volumes de informação, mas continua sendo responsável por verificar fontes, compreender o contexto, entrevistar pessoas e assumir responsabilidade pelo que publica. Um advogado pode acelerar pesquisas jurisprudenciais, mas interpretação jurídica, estratégia e responsabilidade profissional continuam humanas. Um médico pode utilizar sistemas inteligentes no apoio ao diagnóstico sem transferir para uma máquina toda a complexidade de uma decisão clínica. Um professor pode produzir materiais com muito mais eficiência, mas formação, experiência, didática, percepção da turma e relacionamento humano continuam sendo essenciais. Na tecnologia da informação isso é ainda mais evidente: ferramentas automatizadas escrevem códigos, sugerem consultas SQL e identificam falhas, mas arquitetura, segurança, governança, integração, análise de requisitos e tomada de decisão continuam exigindo profissionais qualificados.

Na realidade, a questão mais importante talvez nem seja saber se a inteligência artificial substituirá pessoas. A pergunta mais útil é outra: quais pessoas estarão preparadas para trabalhar em uma sociedade profundamente influenciada pela inteligência artificial? A própria transformação atual demonstra que conhecimento técnico isolado não será suficiente. Pensamento crítico, capacidade analítica, criatividade, comunicação, julgamento, responsabilidade, liderança e habilidade para utilizar ferramentas digitais serão cada vez mais complementares. O Fórum Econômico Mundial aponta exatamente essa combinação ao indicar crescimento simultâneo da demanda por competências tecnológicas e habilidades humanas como pensamento criativo, resiliência, flexibilidade e colaboração.

Portanto, considero precipitado transformar projeções sobre inteligência artificial em sentenças definitivas sobre o futuro profissional das pessoas. Já assistimos muitas vezes a previsões semelhantes acompanhando novas tecnologias, e a realidade demonstrou ser muito mais complexa do que o cenário inicialmente anunciado. Profissões mudaram, algumas atividades desapareceram, novas surgiram e trabalhadores tiveram de se adaptar. Provavelmente acontecerá novamente.

Tecnologia não garante crescimento profissional por si mesma. Quem não estuda, não desenvolve senso crítico e apenas copia aquilo que uma ferramenta produz pode, inclusive, empobrecer intelectualmente. Mas para quem possui conhecimento, sabe questionar, verificar informações e utilizar essas ferramentas conscientemente, a tecnologia pode proporcionar exatamente o contrário: mais produtividade, mais capacidade de aprendizagem, mais possibilidades profissionais e uma enorme expansão daquilo que uma pessoa consegue produzir intelectualmente.

O futuro dificilmente pertencerá simplesmente às máquinas ou simplesmente aos seres humanos. Ele provavelmente pertencerá às pessoas capazes de combinar aquilo que as máquinas fazem melhor com aquilo que continua sendo profundamente humano: conhecimento, discernimento, responsabilidade, criatividade, experiência e capacidade de decidir. E talvez esteja justamente aí o erro das previsões mais alarmistas: imaginar uma competição entre homem e tecnologia quando, historicamente, os maiores avanços aconteceram quando aprendemos a trabalhar com ela.

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