28/02/2026
LIDERANçA

Entre a Dor e a Liberdade: Quando a Vítima Vira Identidade

Reflexão sobre como transformar a dor em responsabilidade pessoal é o passo decisivo para deixar de buscar validação e começar a reconstruir a própria história.

Existe uma diferença decisiva, e muitas vezes invisível, entre sofrer por algo e viver a partir do sofrimento. Sofrer é humano. É inevitável que a vida nos atravesse com perdas, frustrações, injustiças, abandonos e decepções. Mas transformar a dor em identidade é outra coisa. É quando a pessoa deixa de dizer “eu estou passando por isso” e passa a declarar, sem palavras, “eu sou isso”. E é nesse ponto que a dor, que poderia ser ponte para maturidade, vira morada.

A postura de vítima costuma nascer de um lugar legítimo: ninguém escolhe ser ferido. Existem histórias que realmente não têm defesa possível, abusos, traições, negligências, violências, humilhações, injustiças. Há dores que não pedem opinião, pedem respeito. O problema não é reconhecer a ferida. O problema é quando a ferida passa a governar a vida. Quando a narrativa do “olha o que fizeram comigo” se torna o centro de todas as conversas, o filtro de todas as escolhas e o argumento para toda paralisação. Nesse estágio, a pessoa não está mais apenas tentando ser compreendida; ela está, muitas vezes sem perceber, tentando construir um território onde não precise enfrentar o que dói: a responsabilidade pelo próximo passo.

Porque resolver um problema exige algo caro: exige renunciar a algumas vantagens emocionais. E isso quase ninguém fala. A vitimização, mesmo inconsciente, oferece “benefícios” que parecem proteção: ela tira de mim o peso de arriscar de novo, me dá um motivo aceitável para não mudar, me livra da vergonha de tentar e falhar, e ainda cria um lugar social onde eu recebo acolhimento, atenção e solidariedade. Não é que a pessoa esteja fingindo dor, a dor pode ser real. O que muda é o uso que se faz dela. A dor vira moeda. Vira argumento. Vira identidade. Vira um jeito de manter as coisas como estão.

E quando isso acontece, a pessoa não procura solução com a mesma força com que procura aliados. Não necessariamente aliados para o bem, mas aliados para confirmar a história que ela conta. Porque, se alguém aparece com uma pergunta que aponta para saída, aquilo ameaça o “equilíbrio” interno que a vítima construiu. Sair do papel de vítima significa perder a zona confortável onde tudo é culpa de alguém. Significa admitir: “sim, me feriram… mas eu preciso decidir o que faço com isso agora”. E essa frase pesa. Ela é libertadora, mas pesa. Ela coloca o futuro de volta nas minhas mãos. E isso dá medo.

Perceba como a vitimização muda o tipo de conversa. Quem quer solução pergunta: “o que eu posso fazer a partir daqui?”, “qual é o próximo passo?”, “o que está ao meu alcance?”. Quem está preso no papel de vítima pergunta: “quem concorda comigo?”, “quem está do meu lado?”, “quem vê como eu estou certo?”. A prioridade muda. A meta deixa de ser reconstruir e passa a ser provar. Provar que foi injusto. Provar que eu tenho razão. Provar que o outro é culpado. E, enquanto eu estiver tentando provar, eu não estou tentando curar.

O mais delicado é que, quando a pessoa está ferida, ela realmente precisa de acolhimento. Precisa ser ouvida. Precisa de um lugar seguro para chorar. E isso é sagrado. Só que acolhimento não pode virar prisão. Um amigo de verdade não é apenas quem concorda; é também quem, com carinho e coragem, ajuda você a recuperar a autonomia. Às vezes, o tipo de “aliança” que a vitimização busca é uma aliança que mantém a pessoa no mesmo lugar: um círculo de validação contínua, onde todo mundo alimenta a revolta, reforça a indignação e confirma que “não tem jeito”. É uma comunidade de dor, não uma comunidade de cura.

E existe outro ponto: a postura de vítima cria um tipo de poder silencioso. Um poder que não parece poder. É o poder de controlar o ambiente pela culpa. O poder de exigir reparação emocional constante. O poder de manter pessoas por perto pela obrigação de consolar. Isso pode acontecer em famílias, casamentos, amizades, ambientes de trabalho. A vítima vira o centro moral do grupo: todos pisam em ovos, todos têm medo de “machucar mais”, todos tentam compensar. E, com o tempo, o grupo inteiro se organiza em torno da ferida de uma pessoa. Isso é pesado para todos, inclusive para quem está ferido, porque a cura fica cada vez mais distante.

O caminho de saída não é brutal, nem simplista. Não é dizer “para de vitimismo” como se fosse fácil. Não é negar o que aconteceu. O caminho é mais profundo: é separar dor de identidade. É reconhecer o fato sem transformar o fato em destino. É dar nome ao que houve, e, ao mesmo tempo, escolher não viver como refém disso. É entender que você tem direito a sentir, mas também tem responsabilidade sobre o que faz com o que sente.

Essa virada acontece quando a pessoa começa a fazer perguntas que doem, mas libertam:

  • “O que eu ganho mantendo essa história viva do mesmo jeito?”

  • “Que tipo de atenção eu estou buscando sem perceber?”

  • “Que medo eu evito quando fico preso nessa posição?”

  • “Qual parte da minha vida eu deixei de construir por causa disso?”

  • “Se eu não pudesse mais falar sobre o culpado, o que eu precisaria encarar em mim?”

São perguntas que ninguém gosta de ouvir no começo. Mas elas devolvem o comando. Elas devolvem a dignidade. Porque a dignidade não é não sofrer. A dignidade é não permitir que o sofrimento decida quem você será.

E aqui existe uma distinção crucial: assumir responsabilidade não significa inocentar quem te feriu. Significa apenas que você não dará ao agressor, ao passado ou à injustiça o direito de escrever o resto da sua história. Você pode reconhecer o dano, buscar justiça quando couber, estabelecer limites, se afastar, se proteger, e ainda assim escolher não morar no papel de vítima. Porque, quando você mora ali, você vive em dependência emocional do que aconteceu. E dependência emocional é uma forma lenta de prisão.

A saída também passa por um tipo de coragem que quase ninguém romantiza: a coragem de ficar sem plateia. De parar de contar a história para ganhar concordância. De reduzir o discurso e aumentar a ação. Às vezes, curar é ficar mais silencioso por um tempo, não porque você “engoliu tudo”, mas porque você decidiu que a sua energia agora vai para reconstrução, não para argumentação. Curar é trocar a pergunta “quem está do meu lado?” por “quem está disposto a me ver crescer, mesmo quando eu parar de ser a pessoa ferida que eles conhecem?”.

Porque sim: algumas pessoas preferem a sua versão quebrada. Elas sabem lidar com ela. A sua cura muda as relações. A sua maturidade muda o jogo. E isso incomoda. A vitimização, muitas vezes, mantém uma previsibilidade emocional no ambiente. A cura quebra essa previsibilidade. E por isso ela assusta.

No fim, a grande pergunta é: você quer ser compreendido ou quer ser livre? As duas coisas podem caminhar juntas, mas, quando há conflito, a liberdade exige que você pare de depender da compreensão total dos outros. Porque, se você precisar que todos reconheçam sua dor para seguir em frente, você entregou seu futuro nas mãos deles.

A dor pode ser real. O que fizeram pode ter sido injusto. Você pode ter sido vítima de verdade. Mas o futuro começa quando você decide que isso não será o seu endereço. Você honra sua história quando aprende com ela. Você honra sua dor quando não a transforma em arma nem em altar. E você honra a sua vida quando escolhe, com passos pequenos e consistentes, deixar de buscar aliados para sustentar a ferida, e começa a buscar forças para sustentar a reconstrução.

No ambiente de trabalho, essa dinâmica se torna ainda mais visível e prejudicial quando um colaborador, diante de um erro ou de uma dificuldade operacional, reage com gritos, exaltação emocional e choro, deslocando o foco do problema para si mesmo. Em vez de assumir responsabilidades técnicas, revisar processos ou buscar melhoria, passa a acusar colegas, questionar decisões e até confrontar a liderança sob a narrativa de injustiça, criando um clima de tensão que paralisa a equipe e contamina o ambiente organizacional. Nesse cenário, a solução não está em confrontar a emoção com mais emoção, mas em restabelecer critérios objetivos: separar fatos de interpretações, registrar ocorrências, reforçar responsabilidades individuais, alinhar expectativas com clareza e estabelecer limites firmes quanto à conduta profissional. A liderança precisa agir com serenidade, mas também com autoridade, deixando claro que vulnerabilidade não é instrumento de manipulação e que maturidade profissional inclui reconhecer falhas, corrigir rotas e preservar o coletivo. Quando a responsabilidade volta ao centro da conversa, a vitimização perde espaço e a cultura organizacional se fortalece.

A ferida pode explicar você. Mas ela não pode governar você. Isso é maturidade. Isso é liberdade. Isso é recomeço.

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