Quinta, 01 de outubro de 2026
POLíTICA

Depois das urnas, a conta: o próximo presidente e as dívidas com o Brasil

Entre promessas eleitorais e o peso da dívida pública, o Brasil exige clareza sobre como financiar seu futuro sem ampliar o sacrifício da população

Quem afirma conhecer antecipadamente o resultado de uma eleição precisa explicar onde termina a análise e onde começa a própria torcida. Pesquisas são instrumentos importantes para compreender o comportamento do eleitorado, mas não constituem uma sentença sobre o futuro. Trabalham com amostras, métodos, margens de erro e informações recolhidas em determinado período. Captam um cenário sujeito a mudanças, decisões tardias e diferenças de comparecimento. Quando as distâncias entre os candidatos são pequenas, transformar uma possibilidade em certeza pode render repercussão, mas compromete a honestidade do debate. Acertar um prognóstico também não prova, por si só, que havia fundamento para anunciá-lo como inevitável.

A incerteza sobre o resultado das urnas, entretanto, não impede uma cobrança que considero indispensável. Independentemente de quem vença, o próximo presidente deverá responder por duas dívidas diante da sociedade: a dívida de esclarecimento sobre o que pretende fazer e a dívida pública que terá de administrar. A primeira diz respeito à qualidade da discussão eleitoral. A segunda envolve a capacidade de financiar o Estado e sustentar o desenvolvimento. Ambas se encontram quando uma promessa de campanha precisa deixar o palanque e caber no orçamento.

Não é necessário afirmar que todos os candidatos deixaram de apresentar qualquer proposta para reconhecer a insuficiência de um debate que frequentemente oferece mais slogans do que explicações. Propor melhorar a saúde, fortalecer a educação, gerar empregos e reduzir impostos é relativamente fácil. O desafio está em mostrar quanto cada medida custa, de onde virão os recursos, quais serão as prioridades e o que deixará de ser feito. Um programa de governo precisa apresentar escolhas verificáveis. Sem isso, o eleitor recebe a promessa dos benefícios e permanece sem conhecer as condições necessárias para entregá-los.

A dimensão do problema fiscal exige essa transparência. Segundo os dados do Banco Central referentes a agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do Produto Interno Bruto, aproximadamente R$ 11,1 trilhões. O indicador abrange o governo federal, o INSS e os governos estaduais e municipais. Comparar a dívida com o PIB ajuda a avaliar seu tamanho em relação à economia, embora nenhum percentual, isoladamente, seja suficiente para decretar a insolvência de um país. A trajetória do endividamento, seu custo e a capacidade de administrá-lo são fundamentais para compreender o risco.

É justamente no custo que a discussão se torna ainda mais preocupante. Uma dívida elevada exige financiamento contínuo, inclusive para substituir títulos que vencem por novas emissões, operação conhecida como rolagem. O governo precisa encontrar investidores dispostos a emprestar e remunerá-los conforme as condições contratadas. Esses investidores incluem instituições financeiras, fundos, entidades de previdência e pessoas físicas. Portanto, reduzir toda essa despesa à ideia de dinheiro entregue exclusivamente aos bancos distorce o diagnóstico. A crítica ganha força quando descreve corretamente o problema que pretende enfrentar.

Também é necessário atualizar os números. A meta da Selic passou a 13,75% ao ano a partir de 17 de setembro de 2026. Ainda assim, não se pode aplicar essa taxa diretamente sobre toda a dívida para calcular seu custo: existem títulos com diferentes indexadores, prazos e condições de remuneração. A Selic influencia parte relevante desse financiamento, mas não representa uma taxa única incidente sobre cada obrigação do Estado.

Essas distinções não diminuem a gravidade da situação. Elas permitem compreendê-la sem recorrer a simplificações. Quanto maior a pressão dos encargos financeiros e das demais obrigações sobre as contas públicas, mais difícil se torna abrir espaço sustentável para investimentos e ampliar serviços. Saúde, educação, infraestrutura e segurança dependem de planejamento, gestão e recursos. O endividamento pode financiar investimentos importantes, mas perde qualidade quando cresce persistentemente sem uma estratégia convincente de estabilização e sem resultados capazes de fortalecer a economia.

A dívida pública parece distante da vida cotidiana até que seus efeitos se combinam com outras dificuldades e chegam ao orçamento doméstico. O risco fiscal pode pressionar as condições de financiamento, afetar expectativas e tornar o crédito mais caro. Na vida de uma família, isso aparece na prestação que deixa de caber no salário, na compra adiada e no financiamento da casa que exige maior comprometimento da renda. Para o pequeno empresário, surge no capital de giro oneroso, na dificuldade de renovar equipamentos e na contratação que precisa ser suspensa. São canais pelos quais decisões econômicas se transformam em limitações concretas.

É preciso, contudo, resistir à tentação de atribuir todos esses problemas a uma única causa. Os juros cobrados de famílias e empresas também refletem inadimplência, concorrência bancária, custos operacionais, tributos e características de cada contrato. Da mesma forma, uma recuperação judicial pode decorrer de uma combinação de crédito caro, queda de receita, dificuldades de gestão e mudanças no mercado. O endividamento do Estado integra esse cenário, mas não explica sozinho cada empresa em crise ou cada orçamento familiar desequilibrado.

A relação entre dívida, inflação e juros também exige cuidado. O Banco Central utiliza a política monetária para buscar o controle da inflação, considerando sua evolução e suas expectativas. A fragilidade fiscal pode dificultar esse trabalho quando aumenta a desconfiança sobre o futuro das contas públicas e influencia preços e condições financeiras. Juros elevados, por sua vez, podem ampliar os encargos do setor público. Esse vínculo torna ainda mais necessária a coordenação entre uma política fiscal responsável e uma política monetária capaz de preservar o poder de compra da população.

Diante disso, cobrar responsabilidade fiscal significa exigir uma discussão séria sobre despesas, receitas e prioridades. Há espaço para avaliar políticas ineficientes, benefícios tributários pouco transparentes, desperdícios e gastos que entregam resultados insuficientes. Também é necessário proteger serviços essenciais e pessoas vulneráveis. Um ajuste mal desenhado pode prejudicar investimentos, enfraquecer a atividade econômica e comprometer justamente a arrecadação de que o Estado depende. A qualidade das medidas importa tanto quanto o valor anunciado.

Reduzir o número de ministérios pode ter efeitos administrativos e algum impacto financeiro, mas a dimensão da economia precisa ser demonstrada. Mudanças de organograma não substituem o enfrentamento das despesas estruturais nem dispensam decisões difíceis. Da mesma forma, anunciar um esforço fiscal equivalente a determinado percentual do PIB exige explicar o cálculo, o prazo e a composição das medidas. Quanto viria de revisão de gastos? Quanto dependeria de receitas adicionais? Quem suportaria os custos? Quais serviços seriam preservados? Sem essas respostas, um número expressivo pode impressionar e, ao mesmo tempo, esclarecer muito pouco.

A omissão sobre escolhas difíceis prejudica a própria legitimidade do governo que será eleito. O cidadão tem direito de conhecer, antes do voto, as linhas centrais da política econômica que um candidato pretende executar. Evidentemente, nenhum governante consegue antecipar todos os acontecimentos. Mas essa limitação não justifica esconder prioridades, evitar compromissos ou prometer benefícios incompatíveis entre si. A confiança pública exige disposição para dizer o que é possível, o que depende de negociação e o que precisará ser revisto.

Por isso, minha cobrança começa antes da divulgação do resultado eleitoral e continuará depois dele. Quem vencer deverá apresentar um caminho consistente para administrar a dívida, melhorar a qualidade do gasto e recuperar condições de crescimento com estabilidade. Deverá também prestar contas das escolhas feitas e dos resultados alcançados. A eleição pode terminar no domingo; a responsabilidade de governar começa quando a vitória exige transformar discurso em decisão. O país precisa dessa verdade antes que a conta volte a chegar, sem explicação, à mesa de quem trabalha.

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