Quarta, 23 de setembro de 2026
BRASIL

Entre o Poder, a Justiça e a Verdade

Em uma democracia madura, instituições fortes, jornalismo responsável e cidadãos vigilantes precisam caminhar juntos para que ninguém esteja acima da lei

Vivemos um tempo em que talvez um dos maiores desafios da sociedade brasileira seja recuperar a capacidade de confiar sem deixar de fiscalizar, de questionar sem condenar antecipadamente e de defender instituições sem transformá-las em estruturas imunes à crítica. Democracias não se fortalecem pelo silêncio, tampouco pelo espetáculo. Elas se fortalecem quando o cidadão tem acesso à informação, quando jornalistas compreendem a responsabilidade de cada palavra publicada e quando aqueles que exercem autoridade sabem que poder público significa, necessariamente, responsabilidade pública. Em uma sociedade cada vez mais tomada pela velocidade das redes sociais, uma manchete pode atravessar o país em poucos minutos, formar convicções antes mesmo da leitura de uma reportagem e transformar suspeitas em aparentes certezas. É justamente por isso que o jornalismo precisa ser ainda mais cuidadoso. A precisão deixou de ser apenas uma virtude profissional para se tornar uma necessidade democrática.

Uma das reflexões mais importantes desse momento está na diferença entre informar e induzir. Um título jornalístico nunca é apenas um conjunto de palavras colocado acima de uma notícia. Ele determina enquadramento, produz expectativa e influencia a maneira pela qual milhões de pessoas interpretarão aquilo que aconteceu. Quando a notícia envolve ministros de tribunais superiores, empresários, autoridades, investigações, relações institucionais ou possíveis conflitos de interesse, essa responsabilidade se torna ainda maior. Recentemente, por exemplo, Luiz Fux foi sorteado relator de uma ação que busca acesso a registros de eventuais visitas de Daniel Vorcaro e da advogada Viviane Barci de Moraes a gabinetes de senadores. Alexandre de Moraes havia sido inicialmente sorteado, mas declarou-se impedido. Essa é a descrição objetiva do fato. Qualquer conclusão sobre o significado dessas visitas, caso tenham ocorrido, depende de provas, contexto e investigação. É justamente nesse espaço entre o fato comprovado e aquilo que ainda precisa ser esclarecido que o jornalismo profissional deve atuar com serenidade.

O mesmo cuidado precisa existir quando divergências internas alcançam as mais altas instituições da República. A disputa pública entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes ultrapassou o campo das divergências jurídicas e chegou à apresentação de acusações recíprocas. Em 3 de setembro, Moraes encaminhou ao presidente do STF, Edson Fachin, documentos e alegações sobre supostas irregularidades na atuação de Mendonça em investigações relacionadas ao Banco Master e ao INSS. Em resposta apresentada posteriormente, Mendonça pediu o arquivamento da representação contra ele e solicitou que fossem apuradas possíveis condutas de Moraes, incluindo alegações de abuso de autoridade e denunciação caluniosa. São acusações formuladas dentro de uma controvérsia jurídica e institucional, e não sentenças definitivas sobre a responsabilidade de qualquer dos envolvidos. A fala que inspira esta reflexão aborda justamente esse ambiente de tensão, questionando procedimentos, garantias processuais e os limites entre investigação, acusação e julgamento.

Independentemente de preferências políticas ou de simpatias pessoais por qualquer ministro, presidente, parlamentar ou partido, existe uma questão muito maior em jogo: instituições democráticas precisam ser capazes de responder às dúvidas que surgem sobre elas. Questionar uma instituição não significa desejar sua destruição. Muitas vezes, significa exatamente o contrário. Quem compreende a importância de uma instituição também deve compreender a necessidade de preservá-la por meio da transparência, da legalidade, da impessoalidade e do respeito ao devido processo. Nenhum tribunal deveria depender da confiança cega da sociedade. Sua autoridade deve decorrer da Constituição, das leis, da coerência de suas decisões e da percepção pública de que os mesmos princípios jurídicos são aplicados independentemente de quem esteja sendo investigado, acusado ou julgado.

É igualmente importante compreender que o devido processo legal não existe para proteger apenas aqueles de quem gostamos. Ele existe justamente para funcionar quando nossas convicções pessoais nos levariam a desejar uma condenação imediata. Presunção de inocência, contraditório, ampla defesa, juiz natural, imparcialidade e respeito às competências institucionais não são obstáculos à Justiça. São elementos que distinguem Justiça de vingança, processo de perseguição e Estado de Direito de exercício arbitrário do poder. Quando qualquer cidadão passa a acreditar que determinadas pessoas estão acima dessas garantias ou que outras não merecem recebê-las, começa-se a abrir uma porta extremamente perigosa. O princípio que hoje é relativizado contra um adversário poderá amanhã ser relativizado contra qualquer um.

Da mesma maneira, relações entre agentes públicos, empresários, escritórios de advocacia, instituições financeiras e pessoas próximas às autoridades precisam ser tratadas com responsabilidade. A existência de contato, reunião, viagem, contratação ou relação profissional não constitui automaticamente prova de ilegalidade. Entretanto, quando esses relacionamentos alcançam pessoas que exercem funções capazes de interferir em investigações, julgamentos ou decisões públicas, surgem questionamentos legítimos sobre transparência e potenciais conflitos de interesse. Reportagens recentes vêm descrevendo relações e contatos envolvendo integrantes do STF e pessoas relacionadas ao caso Banco Master, ao mesmo tempo em que ministros citados apresentam explicações, negativas e argumentos jurídicos em sua defesa. O papel responsável da imprensa é revelar aquilo que possui relevância pública, ouvir os envolvidos, apresentar documentos, distinguir evidências de interpretações e permitir que a sociedade forme sua própria compreensão.

Talvez seja exatamente aí que resida uma das maiores responsabilidades do jornalismo contemporâneo. Jornalista não deveria assumir o lugar de juiz, promotor ou militante. Sua função primordial é investigar, perguntar, confrontar versões, contextualizar documentos e revelar fatos de interesse público. Há momentos em que uma pergunta bem formulada produz mais conhecimento do que uma acusação precipitada. Há momentos em que a coragem jornalística consiste em publicar aquilo que o poder preferiria esconder. Em outros, a coragem está em reconhecer que determinada informação ainda não permite chegar à conclusão que parte da sociedade gostaria de ouvir. Jornalismo sério não trabalha para confirmar crenças do público. Trabalha para aproximá-lo dos fatos.

Também precisamos abandonar a ideia de que a defesa da democracia exige concordância permanente com aqueles que ocupam suas instituições. Presidentes passam, ministros passam, parlamentares passam, governos passam e partidos se alternam. A República permanece. Por isso, qualquer regra que aceitamos quando beneficia o grupo político com o qual simpatizamos precisa continuar parecendo justa quando aplicada ao grupo do qual discordamos. Esse talvez seja um dos testes mais difíceis da maturidade democrática. Defender princípios apenas quando eles nos favorecem não é defender princípios. É defender conveniência.

A corrupção, quando comprovada, também não deveria possuir identidade ideológica. O dinheiro público retirado de uma escola, de um hospital, de uma estrada, de um programa social ou da segurança pública não pergunta em quem o cidadão votou antes de causar prejuízo. Por isso, denúncias e investigações envolvendo agentes públicos devem ser examinadas com rigor, mas também com respeito às garantias legais. Operações policiais, valores apreendidos e suspeitas de superfaturamento naturalmente possuem enorme impacto social, porém investigação não equivale a condenação. A função de uma sociedade democrática não é escolher antecipadamente quem será considerado culpado, mas exigir que os órgãos competentes investiguem com independência, apresentem provas e permitam que o Judiciário decida de acordo com a lei.

Existe ainda outro fenômeno preocupante: a banalização do escândalo. Quando diariamente somos expostos a denúncias envolvendo cifras milionárias, viagens, contratos, empresários, autoridades e disputas dentro das próprias instituições, existe o risco de desenvolvermos uma espécie de anestesia moral. Aquilo que deveria provocar cobrança por esclarecimentos transforma-se apenas em mais uma notícia perdida no fluxo das redes sociais. O problema dessa normalização é profundo. Uma República não pode permitir que o cidadão chegue ao ponto de considerar natural aquilo que deveria ser excepcional. Ao mesmo tempo, indignação não pode substituir prova, porque uma sociedade que condena apenas pela força de uma manchete também estará construindo outra forma de injustiça.

Por isso, talvez a palavra mais importante seja coerência. Precisamos exigir transparência de todos, devido processo para todos, responsabilidade de todos e limites institucionais para todos. Não pode existir uma Constituição para amigos e outra para adversários, uma ética para quem governa e outra para quem está na oposição, uma interpretação jurídica para quem possui poder e outra para o cidadão comum. Quando a aplicação da lei começa a ser percebida como seletiva, mesmo que essa percepção possa ser objeto de debate, a confiança institucional sofre. E reconstruir confiança é sempre muito mais difícil do que perdê-la.

Até mesmo pesquisas eleitorais, mencionadas ao final da fala original, exigem essa mesma prudência. Percentuais divulgados em determinado momento representam um retrato de uma amostra e precisam ser interpretados considerando metodologia, margem de erro, universo pesquisado e data do levantamento. Pesquisa não é resultado de eleição, assim como tendência não é destino. O eleitor continua sendo o verdadeiro destinatário da informação política, e deveria receber dados suficientes para decidir conscientemente, sem que jornalistas, pesquisas, autoridades ou algoritmos decidam por ele.

No final, talvez a grande reflexão não seja sobre um ministro, um presidente, um empresário, um partido ou um episódio específico. É sobre o tipo de República que desejamos construir e preservar. Uma sociedade verdadeiramente democrática precisa aprender a conviver com perguntas difíceis. Quem fiscaliza o poder? Quem fiscaliza aqueles que fiscalizam? Como impedir conflitos de interesse? Como garantir independência sem criar intocabilidade? Como cobrar transparência sem destruir reputações antes da existência de provas? Como preservar a liberdade de imprensa sem transformar manchetes em sentenças? Essas perguntas não diminuem a democracia. Elas são parte essencial dela.

O cidadão não deveria ser convidado a escolher entre acreditar cegamente nas instituições ou desacreditá-las completamente. Existe um caminho muito mais responsável: acompanhar, questionar, cobrar, comparar versões, conhecer documentos e exigir respostas. Da mesma forma, não precisamos escolher entre liberdade e responsabilidade, nem entre independência institucional e prestação de contas. Democracias maduras conseguem sustentar essas duas exigências simultaneamente.

O poder público, em qualquer de suas formas, não pertence temporariamente a quem ocupa determinado cargo. Ele pertence à sociedade. Ministros, presidentes, governadores, parlamentares, magistrados, procuradores e servidores são passageiros de estruturas que precisam sobreviver às pessoas. Quanto maior o poder recebido, maior deve ser a disposição de explicar decisões, afastar dúvidas e demonstrar que interesses privados jamais se confundiram com responsabilidades públicas.

Talvez seja justamente essa a mensagem que permanece depois de tantas notícias, investigações, disputas e manchetes: o Brasil não precisa de menos instituições, precisa de instituições cada vez mais confiáveis. Não precisa de menos jornalismo, precisa de jornalismo cada vez mais rigoroso. Não precisa de cidadãos silenciosos, precisa de cidadãos cada vez mais conscientes. E não precisa substituir a Justiça pela indignação ou a crítica pela intolerância. Precisa recuperar algo simples, mas absolutamente indispensável a qualquer República: a convicção de que ninguém deve estar abaixo da proteção da lei e, principalmente, ninguém pode estar acima dela.

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