Há uma passagem emblemática de O Advogado do Diabo em que o personagem interpretado por Al Pacino apresenta a vaidade como o seu pecado predileto. A frase atravessou o cinema porque descreve uma fraqueza profundamente humana: o desejo de ser reconhecido, admirado e colocado acima dos demais. A vaidade raramente chega anunciando que pretende corromper alguém. Ela se aproxima silenciosamente, disfarçada de prestígio, competência, influência ou popularidade, até que a pessoa deixe de servir a uma causa e comece a utilizar a causa para servir à própria imagem.
Foi impossível não me lembrar dessa cena ao conhecer o conteúdo dos registros pessoais mantidos por Anthony Fauci durante a pandemia de Covid-19. Mais de mil páginas de anotações, produzidas entre dezembro de 2019 e dezembro de 2022, foram divulgadas em julho de 2026 pelo senador republicano Rand Paul, antes de uma audiência no Senado dos Estados Unidos. Os documentos teriam sido localizados em servidores governamentais pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos americano.
É importante fazer uma correção histórica: em 2020, Fauci não era ainda o principal assessor médico da Casa Branca. Naquele momento, ele dirigia o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, cargo que ocupou de 1984 a 2022, e integrava a força-tarefa criada pelo governo Donald Trump para enfrentar o coronavírus. A função de conselheiro médico-chefe da Presidência viria posteriormente, já no governo Joe Biden, em janeiro de 2021.
Essa distinção não diminui a influência que Fauci exerceu. Ele se tornou uma das figuras mais reconhecidas da pandemia, participou de entrevistas, coletivas oficiais e reuniões com autoridades de diferentes níveis. Sua voz passou a representar, para milhões de pessoas, a própria autoridade da ciência. Justamente por isso, seus registros pessoais merecem ser examinados com seriedade. Quanto maior é a autoridade concedida a alguém, maior deve ser a sua responsabilidade perante a sociedade.
O que chama a atenção nos diários não é apenas a quantidade de reuniões, análises epidemiológicas ou decisões administrativas registradas. É a frequência com que Fauci retorna à própria exposição pública. Em uma anotação de 21 de maio de 2020, ele descreveu sua fama nacional e internacional como “explosiva” e “inimaginável”, acrescentando que seria uma das pessoas mais famosas e reconhecidas do mundo naquele momento. O mesmo conjunto de documentos registra encontros, elogios, homenagens, caricaturas, camisetas, músicas, pedidos de fotografias e manifestações de celebridades.
É verdade que algumas passagens revelam constrangimento e preocupação com a segurança de sua família. Fauci chegou a registrar ameaças e a necessidade de proteção policial. Também seria injusto transformar todo comentário sobre a fama em prova automática de narcisismo. Um diário é, por natureza, um espaço de impressões pessoais, escrito sem a expectativa de publicação. A Associated Press observou, inclusive, que várias anotações demonstram as incertezas enfrentadas por cientistas diante de um vírus desconhecido.
Ainda assim, o conjunto produz uma imagem desconfortável. Em meio à maior emergência sanitária das últimas gerações, o cientista parecia dedicar uma atenção extraordinária à forma como era retratado pela imprensa e recebido pelas celebridades. O diário, em determinados momentos, deixa de parecer o registro de um servidor público enfrentando uma tragédia e se aproxima de um álbum particular de consagração pessoal.
Fauci anotou, com entusiasmo, sua conversa virtual com Julia Roberts, que o teria chamado de herói pessoal. Também registrou referências a Brad Pitt, Bono, Joan Baez, Barbra Streisand e outras figuras da cultura popular. A imprensa americana noticiou que ele acompanhava reportagens elogiosas, representações humorísticas, máscaras com o seu rosto, murais, retratos e bonecos produzidos em sua homenagem.
O problema não está em receber um elogio. Todos nós apreciamos o reconhecimento por um trabalho realizado. O perigo começa quando o elogio se transforma em combustível indispensável para o exercício da função. Um médico pode ser conhecido; um cientista pode tornar-se popular; uma autoridade pode ganhar projeção. Mas, quando a celebridade passa a ocupar o centro das preocupações, a missão pública corre o risco de ser substituída pela manutenção do personagem.
Esse é o vírus da vaidade. Ele não ataca os pulmões, mas compromete o discernimento. Não provoca febre, mas altera a percepção da realidade. A pessoa contaminada começa a acreditar que criticar as suas decisões significa atacar a ciência, a instituição ou o próprio interesse público. O indivíduo já não se apresenta como alguém que interpreta evidências; passa a se enxergar como a própria personificação da verdade.
A situação torna-se mais grave quando existe proximidade excessiva entre a autoridade que deve ser fiscalizada e os profissionais encarregados de fiscalizá-la. Os registros de Fauci mostram inúmeras interações com jornalistas e apresentadores de televisão. Entre elas, aparecem encontros e jantares particulares com o apresentador Jake Tapper, da CNN. A existência de amizade não prova, por si só, favorecimento editorial. Entretanto, relações tão próximas exigem transparência, cautela e independência de ambas as partes, especialmente quando o jornalista cobre diretamente as decisões e declarações daquela autoridade.
A imprensa não deve ser inimiga da ciência, mas tampouco pode transformar cientistas em figuras sagradas. O jornalismo existe para perguntar, investigar, confrontar versões e separar evidências de interesses pessoais ou políticos. Quando a imprensa abandona esse papel e passa a fabricar heróis incontestáveis, ela deixa de informar a sociedade e começa a administrar reputações.
Durante a pandemia, muitas decisões foram tomadas em condições extremas de incerteza. Medidas de distanciamento, restrições temporárias e fechamento de determinados espaços foram defendidos por autoridades de diferentes países para evitar o colapso dos sistemas de saúde. Seria intelectualmente desonesto analisar março de 2020 como se todos já conhecessem naquele momento as respostas que seriam construídas nos anos seguintes.
Isso, porém, não elimina a necessidade de avaliação crítica. Os próprios diários indicam que Fauci se atribuía influência em conversas que antecederam o fechamento de escolas, bares e restaurantes em cidades e estados americanos. As determinações legais foram tomadas por prefeitos e governadores, e não exclusivamente por ele, mas seus conselhos tiveram peso relevante nas decisões. Avaliações posteriores mostraram que o afastamento prolongado das salas de aula produziu perdas educacionais significativas, aprofundou desigualdades e afetou o bem-estar de crianças, adolescentes e famílias.
Segundo o Banco Mundial, a interrupção das atividades escolares contribuiu para uma das maiores crises globais de aprendizagem em um século. Estudos apontaram prejuízos especialmente severos entre estudantes mais jovens e socialmente vulneráveis, além de possíveis impactos econômicos durante toda a vida profissional dessa geração.
Esses resultados não autorizam a afirmação simplista de que todas as medidas sanitárias foram inúteis ou adotadas sem fundamento. Também não provam que houve uma conspiração partidária coordenada para destruir a economia e impedir a reeleição de Donald Trump. É legítimo investigar a utilização política da pandemia, mas uma interpretação política não deve ser apresentada como fato consumado sem provas suficientes.
O que se pode afirmar é que a crise sanitária rapidamente se tornou uma guerra cultural e eleitoral. Fauci foi transformado em símbolo de resistência para alguns e em símbolo de autoritarismo para outros. Trump, por sua vez, oscilou entre elogiá-lo, discordar de suas avaliações e acusá-lo de cometer erros. Os próprios registros descrevem momentos de proximidade, divergência e tensão entre os dois.
Antes da pandemia, os Estados Unidos apresentavam indicadores econômicos relevantes. Em 2019, a taxa de desemprego chegou a 3,5%, o menor nível em aproximadamente 50 anos. No mesmo período, a renda familiar mediana cresceu e a taxa oficial de pobreza caiu para 10,5%, o menor percentual registrado desde o início daquela série histórica, em 1959.
A crise provocada pela Covid-19 alterou drasticamente esse cenário. Governos, partidos e grupos de comunicação passaram a disputar não apenas as soluções para a doença, mas também a narrativa sobre quem deveria receber os méritos e quem carregaria a culpa. A ciência foi empurrada para o palanque, enquanto a política se vestiu de jaleco. Nesse ambiente, questionar uma política pública passou a ser confundido com negar a existência do vírus, e defender alguma medida sanitária passou a ser tratado, pelo campo oposto, como submissão ao autoritarismo.
No Brasil, também vivemos contradições, discursos seletivos e comportamentos incompatíveis com as regras impostas à população. Autoridades que defendiam restrições rigorosas foram vistas em situações que pareciam contrariar as próprias recomendações. Ao mesmo tempo, agentes políticos exploraram o sofrimento causado pela pandemia para atacar adversários, mobilizar suas bases e fortalecer narrativas eleitorais.
Esse comportamento não pertence exclusivamente à esquerda ou à direita. A vaidade não possui filiação partidária. Ela pode contaminar médicos, políticos, jornalistas, empresários, religiosos, professores e qualquer pessoa que passe a confundir a relevância do cargo com uma superioridade pessoal. Sempre que alguém se considera indispensável, infalível ou moralmente acima do escrutínio público, o vírus já começou a agir.
Uma autoridade verdadeiramente comprometida com a ciência precisa reconhecer que o conhecimento evolui. Deve admitir erros, explicar mudanças de orientação e prestar contas das consequências produzidas por suas recomendações. A integridade não está em nunca errar. Está em não esconder o erro, não reescrever o passado e não usar a própria reputação como escudo contra perguntas legítimas.
Também precisamos tomar cuidado para não substituir uma idolatria por outra. Revelar as fragilidades de Fauci não transforma automaticamente seus adversários em donos da verdade. A mesma sociedade que ontem produziu santos midiáticos não pode amanhã fabricar novos heróis com base apenas na conveniência política. O verdadeiro aprendizado exige instituições transparentes, dados acessíveis, imprensa independente, debate científico aberto e autoridades submetidas ao contraditório.
A pandemia deixou cicatrizes profundas: vidas perdidas, famílias enlutadas, empresas encerradas, crianças afastadas da escola e comunidades divididas por uma disputa política quase permanente. Diante de tudo isso, seria trágico reduzir a necessária revisão histórica a mais um espetáculo de celebridades, vinganças ou campanhas eleitorais.
Os diários de Anthony Fauci não encerram o debate sobre a pandemia. Eles abrem uma janela para observar como o poder, a fama e a admiração pública podem afetar até mesmo pessoas altamente qualificadas. Não anulam toda a trajetória científica de Fauci, mas retiram dele o manto artificial da infalibilidade. E isso é saudável, porque nenhuma democracia deve depender de homens considerados infalíveis.
No fim, a principal lição talvez não seja apenas sobre Fauci, Trump, a imprensa americana ou as disputas brasileiras. É sobre todos nós. A vaidade começa quando o espelho se torna mais importante do que a missão; quando a imagem vale mais do que a verdade; quando o aplauso pesa mais do que as consequências.
Talvez o personagem de Al Pacino estivesse certo ao reconhecer o poder desse pecado. A vaidade é sedutora porque convence o indivíduo de que ele não está servindo ao próprio ego, mas salvando o mundo. E poucas coisas são mais perigosas do que alguém investido de enorme autoridade, cercado de admiradores e absolutamente convencido de que questioná-lo equivale a questionar a própria verdade.
