Sexta, 25 de setembro de 2026
SAúDE

Retatrutida: o que as evidências científicas revelam sobre o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2

Estudos iniciais mostram reduções expressivas de peso, glicemia e gordura hepática, enquanto a segurança e os benefícios de longo prazo ainda dependem de investigação

A obesidade raramente se limita ao peso que aparece na balança. Ela pode coexistir com diabetes mellitus tipo 2 e acúmulo de gordura no fígado, compondo um quadro em que alterações metabólicas se reforçam e elevam o risco de complicações. É por isso que, ao examinar um tratamento, considero insuficiente perguntar apenas quantos quilos ele permite perder. Também é preciso investigar seus efeitos sobre o controle da glicose, a saúde dos órgãos, a capacidade funcional e a segurança ao longo do tempo. Foi com essa perspectiva que analisei a revisão de Katsi et al. (2025), publicada na revista Biomolecules, em conjunto com os estudos experimentais e clínicos que fundamentam seus principais resultados. A revisão reuniu trabalhos disponíveis até abril de 2025; portanto, suas conclusões têm os limites próprios das pesquisas examinadas.

A retatrutida chama a atenção por reunir, em uma única molécula de administração semanal, a ativação de três receptores envolvidos no metabolismo: GLP-1, GIP e glucagon. As duas primeiras vias participam, entre outras funções, da regulação da glicose e da resposta à alimentação. A ativação do receptor de glucagon acrescenta uma possibilidade de ação que vem sendo investigada por sua contribuição potencial para a redução do peso. Coskun et al. (2022) descreveram o desenvolvimento e a atividade farmacológica da molécula, enquanto Li et al. (2024) investigaram as estruturas que permitem sua interação com os três receptores. Esses trabalhos ajudam a compreender por que a retatrutida produz interesse científico, mas uma explicação molecular não equivale à demonstração de benefício clínico superior. Essa resposta depende de estudos feitos com pessoas, comparadores adequados e acompanhamento suficiente.

Nos ensaios de fase 2, a magnitude da perda de peso foi expressiva. Jastreboff et al. (2023) acompanharam 338 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a uma condição relacionada ao peso. Após 48 semanas, a redução média estimada no grupo que recebeu 12 mg de retatrutida foi de 24,2% do peso inicial, diante de 2,1% no grupo placebo. O dado merece atenção justamente por sua dimensão, mas exige precisão ao ser comunicado: trata-se da média de um grupo específico, submetido a um protocolo de pesquisa durante um período definido. Ele não prevê a resposta individual de quem venha a receber o medicamento. Também não autoriza, isoladamente, a afirmar superioridade sobre todos os tratamentos existentes.

Entre pessoas com diabetes tipo 2, Rosenstock et al. (2023) observaram, no grupo com escalonamento até 12 mg, redução média de 2,02 pontos percentuais na hemoglobina glicada em 24 semanas e de 16,94% no peso corporal em 36 semanas. A leitura conjunta desses resultados sugere um potencial relevante para atuar sobre duas condições frequentemente associadas. Ainda assim, cada medida responde a uma pergunta distinta: a hemoglobina glicada informa sobre o controle médio da glicose, enquanto a variação do peso descreve outra dimensão do tratamento. Para definir o lugar da retatrutida na prática clínica, será necessário saber como esses efeitos se sustentam e como se comparam, em estudos apropriados, aos de outras opções terapêuticas.

A investigação sobre o fígado amplia essa discussão. Em um ensaio de fase 2a, Sanyal et al. (2024) mediram por ressonância magnética a gordura hepática de participantes com doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica. Em 24 semanas, a redução relativa média foi de 81,4% no grupo de 8 mg e de 82,4% no grupo de 12 mg, enquanto o placebo apresentou aumento médio de 0,3%. São resultados relevantes, desde que seu significado seja preservado: a medida descreve uma alteração na quantidade de gordura detectada pelo exame. Ela não demonstra, por si só, cura da doença, reversão de lesões hepáticas ou prevenção de complicações futuras. A questão decisiva para os próximos estudos é se essa melhora se mantém e se produz benefícios clínicos duradouros.

Toda avaliação séria da retatrutida precisa incluir os efeitos indesejados e a composição do peso perdido. Nos estudos reunidos por Katsi et al. (2025), náusea, diarreia, vômitos e constipação apareceram entre os eventos adversos mais frequentes; alterações da frequência cardíaca também justificam acompanhamento. Além disso, uma perda de peso intensa não informa, sozinha, quanto foi preservado de massa muscular, força e capacidade funcional. Essas dimensões, assim como a saúde óssea, precisam integrar a análise dos resultados. A revisão tampouco estabelece segurança e eficácia para crianças e adolescentes.

A evidência disponível oferece razões consistentes para continuar investigando a retatrutida, mas pede cuidado com conclusões definitivas. Os ensaios citados documentam reduções expressivas de peso, melhora do controle glicêmico e diminuição da gordura hepática nas populações e nos períodos estudados. Ainda é preciso esclarecer a segurança prolongada, a manutenção dos efeitos, a composição do peso perdido e o impacto sobre complicações que realmente importam para a vida dos pacientes. Na pesquisa em saúde, o entusiasmo é legítimo quando nasce de resultados verificáveis. Sua credibilidade depende de reconhecer, com a mesma clareza, as perguntas que permanecem abertas (KATSI et al., 2025; JASTREBOFF et al., 2023; ROSENSTOCK et al., 2023; SANYAL et al., 2024).

Referências: COSKUN, T. et al. LY3437943, a novel triple glucagon, GIP, and GLP-1 receptor agonist for glycemic control and weight loss: from discovery to clinical proof of concept. Cell Metabolism, v. 34, p. 1234–1247.e9, 2022. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov JASTREBOFF, A. M. et al. Triple-hormone-receptor agonist retatrutide for obesity: a phase 2 trial. The New England Journal of Medicine, v. 389, p. 514–526, 2023. New England Journal of Medicine KATSI, V. et al. Retatrutide: a game changer in obesity pharmacotherapy. Biomolecules, v. 15, n. 6, artigo 796, 2025. DOI: 10.3390/biom15060796. mdpi.com LI, W. et al. Structural insights into the triple agonism at GLP-1R, GIPR and GCGR manifested by retatrutide. Cell Discovery, v. 10, artigo 77, 2024. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov ROSENSTOCK, J. et al. Retatrutide, a GIP, GLP-1 and glucagon receptor agonist, for people with type 2 diabetes: a randomised, double-blind, placebo and active-controlled, parallel-group, phase 2 trial conducted in the USA. The Lancet, v. 402, p. 529–544, 2023. PubMed SANYAL, A. J. et al. Triple hormone receptor agonist retatrutide for metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease: a randomized phase 2a trial. Nature Medicine, v. 30, p. 2037–2048, 2024. Nature Medicine

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